Abordagem Holística para o Combate à Pandemia

Atualizado: Fev 10

O atual combate à pandemia provocada pelo COVID-19 tem levantado sérios desafios às nações mundiais. Infelizmente, por mais conhecimento científico que exista, enquadrado por crises passadas, em pouco ou nada tem resultado na obtenção de resultados positivos nesta guerra global.

Os números não mentem e a pressão sobre os políticos para não irem contra as expectativas dos seus cidadãos apenas tem piorado estas reações.


O desenvolvimento da arte da guerra verificado durante o século passado bem como os novos métodos de planeamento militar mais focados em operações cirúrgicas, na proteção dos nossos soldados e na redução de danos colaterais entre as populações civis levaram à criação de uma abordagem holística para o planeamento de operações militares.


No universo tudo está interligado. Um bater de asas de uma borboleta na Tailândia pode provocar uma tempestade em Portugal.

Temos uma infiltração de água na cozinha. Tapa-se a fissura e durante umas semanas o problema parece estar resolvido até a água aparecer mais tarde na sala, por exemplo.

Com o combate a esta pandemia tem sido o mesmo. Deixa-se os cidadãos contaminarem-se para depois os fechar em casa e a seguir trabalhar os números estatísticos das diminuições de mortos e de contaminados…, mas apenas para o sucesso de uns dias. Depois tudo começa de novo.


Imaginemos duas forças em conflito. Todas têm pontos fortes e pontos fracos. Para se ganhar a guerra deve-se atacar o inimigo nos seus pontos mais fracos e não perder tempo a derrubar o “muro de pedra” à cabeçada.


Imaginemos duas forças em oposição: o Povo português e o COVID-19.

Quais os pontos fortes de cada um destes contendores? De onde emana a força principal de cada um, aquela que se for seriamente afetada levará uma das partes à derrota.


Imaginemos a seguinte figura.



O telhado da construção (Frontão) representa o CENTRO DE GRAVIDADE (CG) desse contendor. Normalmente podem existir centros de gravidade em diferentes níveis de planeamento, mas normalmente não é útil apontar mais que dois em cada nível. De acordo com o tipo de combate e a forma de atuação do adversário, nós é que elencamos o centro de gravidade que mais nos interessa. Este é um conceito abstrato definido por nós, talhado de acordo com o interesse para os nossos planos.


No entanto, este centro de onde emana a força principal desse contendor, para existir, apoia-se em várias colunas, colunas essas que se forem derrubadas pelo inimigo/adversário, porão em causa a estabilidade e a sobrevivência desse centro de gravidade. São as chamadas CAPACIDADES CRÍTICAS (CC) do CG. Correspondem normalmente a funções, organizações, meios, processos etc., que em conjunto produzem e mantêm de pé essa força fundamental, o CG. Sem o funcionamento ou existência dessas CC, o CG não existiria. Daí se chamarem críticas por oposição a outras, mais dispensáveis, embora também necessárias.


Mas para que cada CC consiga desempenhar o seu papel, necessita de “alimento” ou de uma constituição específica (betão, mármore, granito, madeira, etc.). Sem esse alimento ou constituição específica toda a CC ficaria inoperacional, temporariamente ou definitivamente e cairia. São as chamadas NECESSIDADES CRÍTICAS (NC).


Aonde atacaria, no CG, nas CC ou nas NC? Quais destas três componentes representam os pontos frágeis onde será mais fácil atacar e contribuir, pouco a pouco, para uma derrota final do inimigo?


Qual CG elencaria para o Povo português?

E para o COVID-19?


Vamos começar.

Nós portugueses, de forma a economizar recursos e esforços temos que atacar o COVID-19 no seu Centro de Gravidade ao mesmo tempo que protegemos o nosso.


A origem das nossas forças em qualquer combate, desde que o Homo Sapiens apareceu e que nos tem garantido a sobrevivência e superioridade relativamente à maior parte das outras espécies, tem sido o cariz social da nossa espécie. Biologicamente somos seres sociais. Sozinhos não conseguiríamos sobreviver. Para este tipo de combate, é uma boa escolha. Noutra situação poderia ser um porta-aviões ou a Proteção civil. Mas não se combate a pandemia com porta-aviões.


Assim sendo, o nosso CG é o “SERMOS SERES SOCIAIS”.


Paradoxalmente, sermos seres sociais constituiu também a nossa maior fragilidade relativamente a este vírus.


Considerando este combate específico, quais as Capacidades que, se não existirem, a nossa componente social ficará sem forças para combater a pandemia?


CC:

- Políticas: somos uma nação politicamente organizada, com princípios e valores, agindo em conjunto, com base em decisões emanadas de um comando central.

- Afetos e emoções: Como seres sociais ligamo-nos através de sentimentos, positivos e negativos. Reagimos às emoções uns dos outros (empatia). E por fim somos curiosos sobre outras pessoas, outros povos e gostamos também de manipular as nossas próprias emoções, seja com substâncias psicoativas seja com desportos aventura, etc.. Sem isto não teríamos saúde mental e deixaríamos de conseguir viver e trabalhar uns com os outros neste combate.

- Organizações e tecnologia: criamos organizações e tecnologias para satisfazermos as nossas necessidades de sobrevivência. Sem elas não existiriam capacidades para combater o vírus.

- Economia: sem dinheiro e interações económicas definharíamos e perderíamos forças para este combate. Seria impossível, por exemplo, desenvolver uma vacina ou comprar uma já existente no estrangeiro.

- Informacional: comunicarmos entre nós bem como com outros povos é fundamental, assim como para que os centros políticos possam emanar as suas diretrizes. Pela forma como sabemos que atua este vírus, sem um sistema de comunicações à distância, a nossa sociedade deixaria de poder continuar a funcionar para este combate.




Experimente preencher as NC desta tabela pois não analisarei aqui o combate específico ao vírus. Deixarei ao cuidado dos cientistas.


O objetivo não tem que ser destruir todas as colunas que seguram o Frontão da pandemia, mas antes sim, escolher algumas, as necessárias ou as mais fáceis de destruir, que depois permitam o colapso do CG.


Façamos agora uma curta análise às decisões e medidas tomadas pelo Povo português até aos dias de hoje.


Conforme podemos constatar da análise destas duas tabelas, temos que proteger o nosso Centro de Gravidade ao mesmo tempo que atacamos as CC do COVI-19, através das NC.


Se olharmos para as Capacidades Críticas do nosso Centro de gravidade, verificamos que estas se encontram num equilíbrio precário, pois uma rotura numa destas colunas afetará a solidez das outras, por exemplo - se a NC “recreação” da CC “economia” for afetada, a CC “afetos e emoções” sofrerá uma fragilidade pois perderá “alimento” ou “consistência” por parte das suas NC “amigos” e “experiências emocionantes”.

O vírus tem atacado, direta ou indiretamente todas estas CC.


No entanto, nada é estanque, conforme dissemos no início. Nada é pontual. Também as decisões da nossa sociedade, em especial as dos decisores políticos, acabarão por afetar ou atacar também todas ou algumas das nossas CC. E esta afetação nunca é estanque ou pontual. Uma correção que vise melhorar ou recuperar uma NC, com efeitos temporais em um mês, por exemplo, poderá acabar por afetar negativamente outra NC, passados três meses.


Vejamos o seguinte exemplo. Impõe-se um isolamento geral à população por um período de um mês. Como as pessoas são seres sociais, além de precisarem de beber água, também precisam de ter relações sociais, ora com a família, ora sem a família. Pedir-lhes um esforço desta envergadura representa um ataque às NC “família”, “amigos”, “experiências emocionantes”, mas também às “liberdades individuais”. Não vão conseguir deixar de beber água durante um mês, mas também nem todos terão capacidade para cumprir o isolamento social solicitado. O resultado é que se conseguirá baixar o nível de disseminação ao final de dois meses e assim salvaguardar a NC “SNS”.


No entanto, depois do “jejum social”, ao primeiro folgar das medidas restritivas, as pessoas tenderão a exagerar nos contactos sociais, provocando-se nova contaminação que resultará em acusações contra os cidadãos que não cumpriram o isolamento, situação que fragilizará a NC “democracia”, resultando numa redução da coesão social e na aplicação de medidas mais repressivas.


Por isso existem diversas variáveis a ponderar numa tomada de decisão. São os chamados FATORES DE DECISÃO – Missão, Espaço, Tempo, Ameaça, Meios Disponíveis, População, Informação.


Se as decisões não forem tomadas com ponderação e equilíbrio entre todos estes fatores de decisão, o vírus colocará os nossos decisores políticos e a nossa população a combater por ele, provocando a médio e longo prazo o colapso do nosso CG.


Infelizmente tem-se definido como missão primordial a salvaguarda da NC “SNS” da CC “organizações e tecnologia” à custa da degradação de todas as outras CC. É o SNS que existe para servir os cidadãos e não o contrário.


Decisões mais sustentadas nos fatores “população” e “missão” fariam com que ganhássemos “tempo” para combater a “ameaça” no “espaço” decisivo sem que todas as CC ficassem debilitadas a médio e longo prazo, com consequências muitas vezes irrecuperáveis.


Mais ameaças surgirão no futuro e quando precisarmos de outro Centro de Gravidade, provavelmente os atuais pilares já estarão muito debilitados para se construir outro Pártenon.



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Eduardo Baptista

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